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Apontamentos Sobre os Indígenas Selvagens da Nação Coroados dos Matos da Província do Rio Grande do Sul,  Afonso Mabilde (1806-1892)

Sobre o Autor:

Vivendo no Rio Grande do Sul a partir de 1833, o engenheiro belga Pierre François Alphonse Booth Mabilde atuou como engenheiro (agrimensor) das colônias no noroeste do estado, entre os anos de 1848 e 1854. Consta que Mabilde foi aprisionado por um grupo de índios Kaingang (coroados), entre os quais permaneceu durante dois anos – período no qual foi dado como morto por sua família.
Durante o período de cativeiro, compôs 63 notas de observação dos hábitos, modos de vida, caraterísticas étnicas e organização social dos Kaigang do Rio Grande do Sul. Seus escritos foram parcialmente publicados em um Anuário do Rio Grande, em 1897 e 1899. Em 1983, foram reunidos e sistematizados por duas bisnetas e publicados pela IBRASA.

Sobre o texto (escrito por May Mabilde Lague e Eivlys Mabilde Grant, bisnetas de Afonso Mabilde)
Quando, como engenheiro e agrimensor das colônias, abria uma estrada, ao cair de uma tarde, foi surpreendido e preso, com todos os homens que com ele trabalhavam, por uma tribo de selvagens coroados (atuais Kaingangues). Logo reconhecido pelos selvagens como sendo o chefe dos brancos, foi levado até o cacique principal, para que ditasse sua sorte. O prisioneiro, usando de mímica, conseguiu mostrar aos selvagens a utilidade de uma luneta que carregava consigo. Deu-a ao cacique, para olhar através dela, deixando-o maravilhado pelo fato de enxergar perto objetos que se achavam distantes. Os coroados, surpreendidos e amedrontados com a luneta, com as mímicas e com os truques praticados pelo prisioneiro, pouparam-lhe a vida. Consideravam-no como a um ser superior, que lhes causava muito temor – bem visível, aliás, para o inteligente e astuto prisioneiro. Trataram-no bem, com um misto de respeito e medo, dando-lhe um rancho velho, no alojamento, para morar. Respeitaram suas roupas e seus cabelos – o que não faziam com prisioneiro algum. (...)
  Começou a colher dados sobre os usos, costumes e crenças, fazendo o possível para falar o idioma indígena. Quando conseguiu falar com os selvagens, estes passaram a vigiá-lo menos. Era só seguido e vigiado por um jovem índio de, mais ou menos, 20 anos de idade. 
  Deslumbrou e conquistou de tal maneira a confiança de Ucuity que, com a cumplicidade do mesmo, conseguiu fugir, após mais de dois anos de cativeiro. Voltou, trazendo vasto material para estudo: pedras preciosas, semipreciosas, amostras de plantas que lhe despertaram a curiosidade etc. 
  Chegando em São Leopoldo, encontrou a esposa e filhos cobertos de luto, pois fora dado por morto. 
 
 
Frontispício da edição dos apontamentos de Mabilde (IBRASA, 1983). Título e desenho compostos pelo autor.
 

Saiba Mais: 1. D’ANGELIS, Wilmar da Rocha (Depto de Lingüística – IEL – UNICAMP). MABILDE E SEUS “APONTAMENTOS” SOBRE OS COROADOS SELVAGENS: tentando separar informação de mistificação e preconceitos. Disponível Aqui
2. MABILDE, Pierre. Apontamentos Sobre os Indígenas Selvagens da Nação Coroados dos Matos. São Paulo: IBRASA, 1983. Disponível Aqui

Trechos de Apontamentos Sobre os Indígenas Selvagens da Nação Coroados dos Matos.

Índios Coroados.
 
Da importância do pinheiral de araucária e do pinhão para os coroados: 
O território do pinheiral pertence exclusivamente à tribo que nele habita e nesse território é que todos os indivíduos daquela tribo apanham o pinhão para seu sustento. A invasão de outra tribo é motivo para guerra de extermínio para a qual são convocadas todas as demais tribos.

O que é Araucaria??

A araucária (Araucaria angustifolia) é a espécie arbórea dominante da floresta ombrófila mista, ocorrendo principalmente na região Sul do Brasil, em menor quantidade e diversidade nos estado de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e em pequenos trechos da Argentina e Paraguai. É conhecida pelos nomes populares de pinheiro-brasileiro e pinheiro-do-paraná, sendo também chamada pelo nome de origem indígena, curi


Araucária

Da indiferença em relação ao peixe como alimento: 
 
A pesca com anzol ou outro artifício para pescar é desconhecida pelos indígenas coroados e não nos consta que tenham meios para apanhar peixes, aos quais, aliás, não dão o menor apreço..
 
 
Aldeia os índios coroados
 
Do pudor das mulheres em expor o corpo: 
 
As mulheres que amamentam parecem ter menos escrúpulo em aparecer e mostrar-se com os seios à vista; porém, as moças, sempre que se apresentam ou aparecem a estranhos é com os seios cobertos com as mãos. Colocam a mão direita sobre o seio esquerdo e a esquerda sobre o seio direito, de modo a terem os braços cruzados sobre o peito. Mesmo em meio somente a coroados, vimos algumas vezes as moças aparecerem com os seios cobertos aos homens da sua tribo.
 
Sobre o homicídio e o suicídio entre os coroados: 
O homicídio é desconhecido entre os coroados, segundo nos garantiu um cacique que, ao ser interrogado sobre o assunto e inquirido sobre o que fariam no caso de um coroado tirar a vida de outro seu companheiro, respondeu-nos que o faria matar da mesma forma que ele tivesse morto o outro.
Insistimos com aquele cacique para que nos dissesse como encararia um homem da sua tribo que suicidasse e o que 
faria com o seu cadáver, nesse caso. Vimos que a resposta se tornava embaraçosa, porque hesitou um momento para emitir sua opinião num caso, para ele, tão estranho e desconhecido e para o qual não achava pronta solução. Ficamos, porém, admirados com a resposta que, no fim de dois ou três minutos de reflexão, nos deu. Disse ele: Se um homem da sua gente se matasse a si mesmo, ele, (cacique), mandaria arrastar o corpo pelo meio das árvores, bem longe dos seus ranchos e o deixaria lá, para os bichos comerem-no, porque somente gente que não tem coragem para viver é que pode matar-se a si mesmo e não pode ser deitado morto (enterrado) no lugar onde se deita outra gente morta com coragem. Somente gente má pode matar-se a si mesma, e gente assim má, devem os bichos comer, lá entre as árvores..
Sobre o mesmo assunto, perguntamos a vários caciques coroados a sua opinião. Todos, sem exceção, responderam que não podem acreditar que houvesse homens que se matassem a si mesmos.
 

Saiba Mais: MABILDE, Pierre. Apontamentos Sobre os Indígenas Selvagens da Nação Coroados dos Matos. São Paulo: IBRASA, 1983.

 

Aventuras de um Tropeiro, Leopoldo Tietböhl (1939)

 
 
Leopoldo Tietböhl nasceu a 06 de novembro de 1874, em Três Forquilhas (RS), falecendo em 30 de novembro de 1947. Como professor, atuou em diversas escolas da capital, entre elas, o Instituto Júlio de Castilhos, Colégio Farroupilha e Escola Normal. Colaborou com jornais do Estado e deixou várias obras publicadas, assinando com o pseudônimo de Léo Tito. Foi homenageado, tendo seu nome em uma escola da rede pública, em Porto Alegre, e eleito patrono da Biblioteca de Terra de Areia.

Sobre o texto: 
 
Os apontamentos são registros tomados ao longode trinta anos, que permaneceram sob posse da família até serem publicados em 1897 e 1899 pelo Annuario do Estado do Rio Grande do Sul. Em nota, o editor atribui a publicação ao obséquio de um ex-consul alemão em Porto Alegre, Guilherme Ter Brüggen, e informa que o manuscrito traz o título: “Apontamentos ao correr da penna sobre os indígenas selvagens da nação ‘Coroado’ daprovíncia de S. Pedro do Rio Grande do Sul, extraídos das minhas notas, tomadas em viagens e excursões pelos sertões de mattas virgens da mesma província”.
 
“[O livro] Reavivará a memória do leitor mais idoso que se deleitará com os causos do Chico Ventana, cuja busca e registros feitos pelo autor foram, sob todos os aspectos, pacientes e preciosos. (...) [propiciando ao] leitor identificar o linguajar corrente do tresforquilhense de então.”

Carrêro, pirigo, varejei, gaio, desgranida, amuntá, forcejei, estrupício, supetão e outros termos que estão inseridos no texto de Tietböhl, fizeram e fazem parte do linguajar de muitos viventes. É, portanto, uma amostra de nosso patrimônio cultural e histórico, uma fonte de pesquisa para muitas das ciências sociais.
Na região de colonização italiana tem aparecido monografias e teses sobre os dialetos dos primeiros imigrantes e muitos grupos tentam preservá-los, publicando livros a respeito. Cursos são promovidos “ensinando” crianças a falarem os dialetos italianos. Quem sabe, num futuro próximo, nós, “os pelos duros” também não sigamos o mesmo caminho, com o nosso linguajar dos Campos de Cima?  (Nilza Huyer Ely) 
 
Trechos de Aventuras de um Tropeiro
 
Já se passaram muntos ano. Naquele tempo, ninguém andava co’a chincha na viria. Nem se carecia pulicia bolante porque “inda não tinha aparecido a praga dos alarife. Um dia fui ao mato buscá cipó. Caía u’a chuvinha de moiá bobo. Era um tempo morrinhento, ansim de casamento de raposa.
 
 
Região por onde tropeava Chico Ventana: rota dos tropeiros, ligando os Campos de Cima da Serra (planalto nordeste do estado) e planícies litorâneas, entre Torres e Tramandaí.
 
Como êle ameaçava de se arruíná mais, carcei as bota russiona do meu sogro. Assunguei elas p’ra riba, e amarrei as tira das bota na guaiaca de couro de jaguatirica, rechiada de munição. Garrei minha espinhardinha. Desses que chamemo de “taquari” ou ‘pica-pau’. Essa arminha, eu, p’r’o causo, tinha negociado por um matungo, um libuno véio e sêco, que o compradô arreservou p’ra piquete.
Longe, no mato, parei um nadinha. Despois de considera um intante, cambei mão dereita (desviei-me para a direita). Sem sabe de que jeito, ganhei por u’a picada itreita. Inda por riba, munto limpa, como se ali tivesse trabaiado bassoura. Discunfiei. Cheguei inté a pensa: Será serviço dargu’a alma perdida? Mas, fui andando.
No que levo a arma à cara p’ra chamusca u’a jacutinga, que se embalanceva num rapo de ipê, senti de repente um empurrão forte, de coisa que me sacudiu p’ra diante. E lá me fui como mala de viagêro quando vai flouxa nos tento; ou ansim a modo de i avoando.
No premêro supetão, me aditou (pareceu-me) que aquele lugá era incantado... Nem sei conta de que jeito fiquei! E de vereda, indas que eu tenha o corpo fechado, risquei o sino-salomão e esperei o estrupício. Só lês sei dize que, quando eu quis me apercatá, já tinha margüiado num poço. E, a bem de não morrê afogado, forcejei p’ra mode amuntá num bicho monstro, que andava do meu lado e me levava p’lo perau afora...
Pois, esse atrivido era u’a anta macota. Eu ‘tava no caminho dela. A danada tinha enfiado o pescoço entre o grosso da minha perna e a tira de couro da bota russiona...De vereda atorei, c’o facão, a tira de couro. Despois de lida um poquito mais, sempre pude amuntá na anta. A desgranida nem deu p’ra gostá! Fui tapeando ela na boca, e deste jeito obriguei a excomungada a se recosta no barranco.
Ligerito me garrei num gaio de camboatá, que descia, como de prepós’ito, inté a flôr-d’água.  Num instante, me varejei p’r’o sêco. Mas, lês digo: dei um pulo que inté um burlantim havéra de invejá, si visse.Pois, meus amigo, deisde essa prueza, me veio a abusão (aversão) que inté hoje tenho, de bota russiona! Não quero mais sabe de simiante carçado, que é um pirigo em carrêro de anta.

Saiba mais: ELY, Nilza Huyer e BARROSO, Vera Lúcia Maciel. Imigração Alemã, 170 anos – Vale do Três Forquilhas. Porto Alegre: Est, 1997<.