Please update your Flash Player to view content.

Strict Standards: Only variables should be assigned by reference in /home/observat/public_html/projeto/plugins/content/plg_jwadvanced/plg_jwadvanced.php on line 81

Viagem ao Rio Grande do Sul: 1820-21, Auguste de Saint-Hilaire (1ª publicação: 1827)

 
Sobre o autor:
 
O fisiologista e botânico francês, Auguste de Saint-Hilaire, nasceu a 04 de outubro de 1779, em Orleães e faleceu em 03 de setembro de 1853, na mesma cidade francesa. Comenta a "Brasiliana da Biblioteca Nacional", página 69: “Sua viagem ao Brasil foi paradigmática no que diz respeito à forma como os cientistas da Europa dita civilizada se relacionaram com o Brasil no início do século XIX.” 
Saint-Hilaire veio para o Brasil em 1816 com a Missão Extraordinária do Duque de Luxemburgo, que tinha por objetivo resolver o conflito que opunha Portugal e França quanto à posse da Guiana. Com aprovação do Museu de História Natural de Paris e financiamento do Ministério do Interior, o naturalista viajou pelo Brasil entre 1816 e 1822.

 






Saiba mais: Clicando aqui

Sobre o texto:
Na viagem pelo território rio-grandense, onde percorreu mais de dois mil quilômetros, Saint-Hilaire contou com a experiência de militares, estancieiros que o guiaram. Acompanhava-o, também, um índio guarani e um negro forro, além de um criado francês.
No prefácio da edição de 2002 dos diários de Saint-Hilaire em sua viagem ao Sul do Brasi, Guilhermino César escreve: “A curiosidade daquele homem excepcional, ao invés de se fechar na contemplação do mundo físico, igualmente se abriu à contemplação do homem, das instituições, dos costumes, das formas de trabalho do aborígine, do branco, dos negros, livres ou escravos, vale dizer, da pintalgada humanidade que aqui desabrochava, antes de se libertar o Brasil do imobilismo colonial, a caminho da independência política”.
 

Saiba mais: GALMARINO, Vitória Machado Winter. Viagem de Auguste Saint-Hilaire ao Rio Grande do Sul (1820-21):o que torna legítima a apreensão de um monumento como documento. Disponível Aqui

Trechos de Viagem ao Rio Grande do Sul
 
Servindo-se do diário e de outras observações orais ou impressas, levou anos a polir sua Voyage à Rio Grande do Sul. Penetrou pela primeira vez nas terras de São Pedro do Sul em junho de 1820, veio a Porto Alegre, foi à Cisplatina, percorreu as Missões, desceu o Jacuí; sua permanência foi de morada: só regressou ao Rio de Janeiro em maio de 1821, embarcando no porto de Rio Grande 

 
TORRES, 4, segunda-feira, 4 de junho de 1820. Sempre areia e mar. Enquanto nos dias anteriores só avistávamos uma praia esbranquiçada que se confundia com o céu na linha do horizonte, hoje, ao menos, deparamos dois montes de nominados Torres, por que realmente avançam mar adentro, como duas torres arredondadas. Para as bandas do oeste, recomeçamos a avistar a grande cordilheira que há muito tempo não víamos. Cerca de uma légua daqui, encontramo-nos à mar em do rio Mampituba (pai do frio), que, atravessando a praia, se lançar no mar, após separar a Província de Santa Catarina da Capitania do Rio Grande; passamo-lo do mesmo modo que o rio Araranguá 
 
 Mapa utilizado por Saint-Hilaire  em sua viagem ao Rio Grande do Sul
 
Paralelamente ao mar, um lago de águas tranquilas e cerca das de altas ciperáceas; do outro lado, crescem matas em terreno plano. À direita veem-se ainda areais puros e, por fim, o horizonte limitado pela grande cordilheira, cujo cimo forma um imenso planalto 
Depois de passarmos por essa igreja, chegamos a um forte, cuja construção está sendo ultimada neste momento e junto à qual se acha o alojamento dos soldados do posto e o do alferes que os comanda. Estas construções estão situadas no lado ocidental do monte, local donde gozei um panorama que se me afigurou mais encantador do que efetivamente era, por causa da monotonia dos are ais áridos, batidos pelas ondas 
  Saint-Hilaire no retorno da viagem ao Brasil
 
 Desde Laguna até aqui [Torres], a costa é tão baixa e de tal modo castigada pelas ondas, tão perigosas para as peque nas embarcações, que nem se podia imaginar que os inimigos delas ousassem desembarcar. [Em Torres, a construção do] forte está sendo levada adiante, (...) empregaram-se em sua construção cerca de trinta prisioneiros, tomados a Artigas 
 
 

Caderno de campo de Auguste Saint-Hilaire em sua viagem ao Brasil.
 
 
 À exceção de apenas um prisioneiro, os demais são índios (...), a maior parte revela traços de sangue espanhol. Uns vieram das Missões, outros de Entre-Rios e do Paraguai. Parece que só o gosto pela pilhagem os havia reunido como a tantos outros, sob a bandeira de seus chefes 
 O terreno é bastante arenoso e, principalmente do lado da serra, áreas consideráveis são cobertas de butiás. Agora não se vê quase nenhuma planta em flor. A relva mostra-se amarelada, seca, as semelhando-se pelo aspecto ao das pastagens alagadiças da Sologne
 
 Auguste de Saint-Hilaire: "Viagem ao Interior do Brasil", escrito em 1827 e publicado originalmente em 1850.
 
 

 
 
 
 

 
 
 
 
 
 
 Em Osório, [antiga Freguesia da Serra]: terminado meu trabalho, pedi licença ao dono da choupana para pernoitar em sua casa, sendo atendido. Esta é construída em madeira encruzada, revestida de folhas de palmeiras, que também entram na sua cobertura. Compõe-se de um celeiro sem porta e um quarto desprovido de janela e mobiliário, onde a roupa branca e o vestuário de toda a família são estendidos sobre traves 
 Apesar da indigência que revela essa triste morada, a dona da casa se veste muito melhor que nossas camponesas francesas. Soube por seu marido, que nos arredores daqui se cultiva mandioca, feijão, trigo e milho que, em geral, só dá uma espiga 
 
Feitor corrigindo um negro.
 
 A localidade pertence à Freguesia da Serra, que dista daqui quinze léguas e, por isso, os moradores vão à missa só pela Páscoa e morrem sem receber os sacramentos 
 
Sobre os companheiros de viagem contratados para servir o botânico: 
 
 Torno-me, pouco a pouco, escravo de José Mariano [Tropeiro mestiço, aluga do em Ubá, perto do Rio de Janeiro, encarregado de ferrar os animais, cuidar do arreamento, caçar e preparar os pássaros] 

Tenda dos puri.
 
 Firmino só me fala com ar insolente [índio botocudo trazido pelo autor das margens do Jequitinhonha, encarregado de transportar e preparar as provisões e de ajudar Manuel.]; Manuel é ainda o melhor [negro forro alugado em São Paulo para campear os animais, carregá-los e descarregá-los], mas de uma suscetibilidade que exige as mais fatigantes precauções. 
 Para mim é um suplício inexprimível achar-me sempre entre esses aborrecidos personagens, e se à tarde gozei alguma tranquilidade foi por que me refugiei sozinho nessa choupana. 
 
 
Plantas usuais dos brasileiros (1ª edição em francês)
 
 [Caminho entre Osório e Santo Antônio da Patrulha]: “A estrada continua a atravessar a mesma planície úmida, já descrita, e que a vizinhança da serra, a mistura de pequenos bosques com pastagens e o aspecto dos butiás tornam muitíssimo agradável. Os bosquezinhos, espalha dos nas pastagens, assemelham-se bastante ao que chamamos pousos; as árvores aí, muito próximas umas das outras, têm pouco vigor e altura. 
 
Página do livro Plantas usuais do Brasil, de Saint-Hilaire.
 
 
 O caminho vai gradativamente se aproximando da serra e, perto de uma légua daqui, vimos o lago de que falei ontem e que se estende sobranceiro ao pé das montanhas. Até aqui desfrutamos esta magnífica vista, e a choupana, junto à qual estivemos parados, se localiza à margem do lago. 
 Este lugar seria delicioso se os arredores do lago fossem cultivados e povoados de casas, uma vez que a mais bela paisagem precisa ser animada pela presença e trabalho do homem. Entretanto, mal se veem, de longe em longe, algumas miseráveis choupanas. Parei perto de uma, tão úmida que não ou sei fazer nela a minha cama. 
 Enquanto escrevo, desenrolam uma esteira no chão, e aí servem a sopa, reunindo-se toda a família em redor da esteira. Convidaram-me a tomar parte nessa refeição, mas recusei. Perguntei o nome do lago, mas não me souberam responder. Quando a ele se referem, dizem simplesmente o lago, e como aí não existe outro, todos entendem. 
 
Sobre o humor do índio Firminiano: 
 
 Lastimo a mudança de comportamento de Firmiano; essa transformação se deve não só aos maus exemplos, mas ainda por se tornar objeto contínuo das chacotas de José Mariano e, sobretudo, do negro Manuel. Não se cala nunca, discute, responde com grosserias, e assim, se torna desonesto, mentiroso, contrariando todo o mundo. 
 A opressão o irrita e lhe transforma o caráter. Humilhado, revolta-se e fica de intolerável mau humor. Há tão pouca lógica em suas ideias, tão pouco discernimento e noção das coisas, que se torna impossível fazê-lo ouvir a voz da razão 
 Não compreende o quanto seria infeliz se eu o despedisse; apenas reconhece ser justo que me sirva porque o alimento e visto. Seu trabalho é tão mal feito quanto possível; já não me dispensa nenhuma afeição, mas o suporto por piedade, pois se perderá caso o abandone e tenho esperança de que ficando só comigo voltará ao que era antes 
 

Saiba mais: SAINT-HILAIRE, Auguste. Viagem ao Rio Grande do Sul. Brasília: Senado Federal, 2002.

Noite de Reis, Fernandes Bastos (1ª publicação em 1935)
 


Capa da 2ª  edição. BASTOS, Fernandes. Noite de Reis, narrativa histórica. Porto Alegre: Evangraf, 2007. Prefácio e biografia: Associação de Estudos Culturais.
 
A publicação de Noite de Reis, de Fernandes Bastos, cuja primeira edição data de 1935, motivou a formação da Associação de Estudos Culturais de Osório, ainda na década de 1980. Correram três décadas até que o projeto se realizasse e, finalmente, em 2007, a Associação lançou a segunda edição revisada e atualizada.
 
A iniciativa é importantíssima, pois resgata a narrativa histórica de Bastos que, ao recontar as façanhas e desvios do lendário Baiano Candinho, reconstitui, em um texto primoroso, um período crucial na história do Rio Grande do Sul. A narrativa se desenrola no último quarto do século 19, entre as localidades de Conceição do Arroio (atual Osório),Três Forquilhas, Torres, Serra do Pinto e Campos de Cima da Serra.
Acompanhamos as desventuras do Baiano, desertor da Guerra do Paraguai que subia pelo litoral em direção a Laguna e acabou se instalando com seus companheiros em Três Forquilhas, comunidade formada por colonos alemães. A partir daí, Bastos recompõe a complexa relação entre alemães protestantes, índios, negros, açorianos e mestiços de todos os tipos que habitavam ou circulavam pela região.
 
No centro das contradições, encontra-se o Baiano, personagem mítico, que ficou na memória dos litorâneos do Norte como uma espécie de Lampião sulino: ora condenado por sua cumplicidade com ladrões de gado e mercenários de guerra, ora admirado por sua bondade, senso de justiça e bravura. Uma bonita e apaixonada escrita, a crônica de Bastos recoloca o litoral sul rio-grandense em sua condição de território fundador do estado político, étnico e histórico que conhecemos hoje.
 
Sobre Fernandes Bastos:
Manoel Estevão Fernandes Bastos nasceu em 03 de agosto de 1885, em Porto Alegre e faleceu em 1938, na capital. Mudou-se para Conceição do Arroio, atual Osório, nos primeiros anos do século passado, onde atuou como advogado e cumpriu mandato de Intendente nas gestões de 1912, 1920 e 1928. Sua dedicação ao resgate de documentos, à investigação de fontes e à pesquisa contínua da história e costumes do município de Osório e região compõe preciosa fonte de estudos a pesquisadores até os dias de hoje.
 
Trechos de Noite de Reis, narrativa histórica (2º edição, revisada e atualizada. Porto Alegre: Evangraf, 2007)
 
 O caminho que leva de Conceição do Arroio ao Sangradouro dos Cornélios pouco interesse pode despertar para o comum dos viajantes. Atravessando-se o “Passo da lagoa”, único acidente interessante, entra-se em uma zona extensa de campos mais ou menos arenosos, pontilhada, aqui e ali, de pequenos capões. Um grande tabuleiro macegoso, onde há apenas salpicos de um verde mais escuro. Paisagem morta, por isso mesmo triste 
 
Mapa alemão assinalando as colônias alemãs no Sul do Brasil, no século XIX. A colônia de Três Forquilhas aparece abaixo de Laguna, próxima ao litoral, qualificada como “colônia grande”.
 
 Esses pensamentos todos povoavam o seu cérebro e mais se punham em desordenado vai-vem em determinados momentos, quando Candinho, querendo justificar perante a própria consciência a sua resolução, mergulhava no passado infeliz da sua vida, como a querer que a revolta íntima lhe causticasse mais a alma, endurecendo-lhe o coração. Fazia como o ébrio, que também sabe que o álcool é um veneno, mas nem por isso deixa de esgotar, de um sorvo, o copo fatal, quando quer abafar as mágoas que o vão acabrunhando 
 Esses comentários refletiam muito bem a opinião da colônia a respeito daquele homem. Quaisquer censuras que se queiram fazer aos atos e atitudes de Candinho exigem que se atente muito bem para as circunstâncias que rodearam sua vida e, ultimamente, a sua atuação partidária. Quantas vezes não teria ele querido livrar-se daqueles elementos todos que o cercavam interesseiramente? (...) Não devemos nos horrorizar diante do crime, mas estudar detidamente o criminoso. 
Gado arrebanhado (preso, cercado), sobretudo no Uruguai, descansava em invernadas, no longo caminho até Laguna pelos campos costeiros do Rio Grande do Sul.
 
 A Vila da Conceição do Arroio amanhecia sob certo alvoroço, no dia 19 de dezembro de 1891. Ouviam-se tiros que partiam de grupos desconhecidos que estacionavam pelos cantos da praça, matando o tempo com gracejos e risadas. (...) Viam-se pelas vendas indivíduos mal encarados, ostensivamente armados, em libações e vozerios (...) E a maioria da população não atinava com a razão de ser daquela estranha demonstração de força. E passavam homens a galope 
 

Tropeiros – Detalhe da capa do livro de Jacob Von Tschudi (1869).
 
 Uma bela manhã, depois de encilhar sua mula e de arrear um cargueiro em cujos jacás foram colocadas algumas roupas, de mistura com panelas sujas, uma caneca enferrujada e mais alguns tarecos, Candinho montou e, sem proferir palavra, tomou a picada que o devia levar à boca da Serra. A mulher e os filhos iam a pé, seguidos de um guaipeca que, afinal, não estava encontrando justificação para uma jornada daquelas, quando tanto lhe custara deixar uma carniça que lá ficara num garapiá, perto do rodeio do fundo 
 

Saiba mais: BASTOS, Fernandes. Noite de Reis, narrativa histórica. Porto Alegre: Evangraf, 2007.

Cartas ao governador da Província de São Pedro do Sul, Francisco de Paula Soares (1828)
 


Imagem: a província do Rio Grande de São Pedro na época de Paula Soares. (Herrmann Rudolf Wendroth: Mapa da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul em 1852)

 
Sobre o autor:
Francisco de Paula Soares foi administrador do Presídio de Torres (fortificação criada pelos portugueses para resguardar a divisa litorânea setentrional da Província de Rio Grande de São Pedro do Sul). A cidade de Torres é um dos mais antigos núcleos populacionais do Rio Grande do Sul. Seu povoamento teve início em 1809, com a criação da guarnição militar nessas terras pertencentes ao Município de Santo Antônio da Patrulha.

Saiba mais: ELY, Nilza Huyer e BARROSO, Vera Lúcia Maciel. Imigração alemã, 170 anos: Vale do Três Forquilhas. Porto Alegre: Est, 1997.

Sobre as cartas:
Em outubro de 1826, foram transferidos parte dos imigrantes alemães de São Leopoldo para o Presídio das Torres [Guarda das Torres]. O coronel Francisco de Paula Soares, que comandava o presídio, dotado de novas instalações desde 1824, dividiu os 383 colonos, colocando os católicos junto ao presídio e os protestantes, com seu pastor [Carlos Leopoldo Voges] e médico [Georg Elias Zinkgraff], em local oito léguas distante.
As cartas mostram as demandas, por vezes em tom desesperado, de Francisco de Paula Soares ao governador da província por condições para instalar os colonos naquelas terras – à época, sem comunicação por terra com a capital, isoladas e desprovidas de abastecimento, por um lado, e, por outro, da escassa possibilidade de escoar os produtos que o trabalho dos colonos viria a gerar.
 
Trechos das Cartas
Presídio das Torres, 26 de março de 1828:
 Tenho a comunicar a V. Exa. Que fiz entrar para o mato uma partida exploradora porque apareceram indícios de gentios nas vizinhanças da Fazenda do Alferes Terra, onde já roubaram em novembro passado e hoje avisaram-me que na colônia protestante, na costa das Três Forquilhas, fizeram seus roubos aos alemães. O comandante da guarnição, a quem pedi houvesse falar com V. Exa. Sobre presos, depósitos e colônia, porque eu aqui tinha 20 guaranis e estes foram recolhidos a essa capital e empregados nas canhoeiras; como eu posso ficar sem gente nesse lugar?” Francisco de Paula Soares. 
Exmo Sr.: já me falta sofrimento para suportar tanta inconsequência; [os alemães] estavam muito satisfeitos com as terras, mas agora, porque o Marcos disse a uns colonos na Vila da Patrulha que V. Exa iria criar nova colônia no Rolante, e que lá havia campos, todos requisitaram terras pela esperança de serem admitidos na [nova] colônia e principiar [a receber] novos subsídios. Tenho suspeita, e não sem fundamento, que o alemão Paulo Magno tem sido o móvel dessa sedição que desorientou a maior parte dos colonos, de modo que só quinze estão trabalhando nas terras. É por isso que imploro a V. Exa que se digne a desenganar essa gente, fazendo castigar exemplarmente os cabeças de uma rebelião de quinze meses e que não tem outro objeto senão vencerem subsídio eternamente, mudando sempre de colônia, sem cultivarem as florestas do Brasil, que é para isso que o Brasil os convida com tantas vantagens.
 

Crônica da Terra de Muitos, André Ribeiro Coutinho (1786)

 

Mapa de 1786, mostrando: Barra da Lagoa dos Patos (antiga Barra do Rio Grande de São Pedro), Ilha dos Marinheiros e Vila de São Pedro (atual Rio Grande).
 
Sobre o autor: 
Guilhermino César conta que
 o Mestre de Campo André Ribeiro Coutinho, segundo governador do Rio Grande, era homem de boas letras. À sua geração pertencem grandes figuras de soldados, administradores e intelectuais. Foi ele que batizou o Rio Grande do Sul com o epíteto ‘Terra dos Muitos’. Sob a ironia da expressão, descobre-se a ternura do criador pela criatura, mas advinha-se principalmente a larga estrada que se abria aos novos habitantes de uma terra cheia de possibilidades materiais. E isto ocorria no alvorecer do século XVIII 
 A criação da Fortaleza Jesus-Maria José, à entrada da barra da Lagoa dos Patos, pôs fim ao primeiro estágio de um longo e vacilante processo de abordagem do Rio Grande de São Pedro. A vila que imediatamente lhe surgiu em derredor, (...), marcou o segundo estágio, que vai propriamente até 1801, quando se dá a integração definitiva do território gaúcho com a incorporação das Missões Orientais do Uruguai 
 

Saiba mais: COUTINHO, André Ribeiro. “Terra dos Muitos”. In: Primeiros Cronistas do Rio Grande do Sul. (org. Guilhermino César). Porto Alegre: UFRGS, 1981

 
Planta da Fortaleza de Jesus, Maria, Jozé (séc. XVIII) 
 
O Forte Jesus, Maria e José de Rio Grande, hoje desaparecido, estava localizado na margem direita do canal da Barra, núcleo da povoação (atual cidade) de Rio Grande, no litoral do Estado do Rio Grande do Sul. Remonta a uma fortificação erguida pelo Engenheiro Militar, Brigadeiro José da Silva Paes, em 19/fev/1737, em área fortificada provisoriamente pelo lado da Campanha pelo Coronel de Ordenanças Cristóvão Pereira de Abreu
O forte de Jesus, Maria, José (Presídio de Jesus, Maria, José), constituiu o núcleo da Colônia do Rio Grande de São Pedro, fundada oficialmente em maio de 1737, cpor ordens do governador do Rio de Janeiro e Minas Gerais, Gomes Freire de Andrade. A escolha do local, bem como sua colonização com o estabelecimento de estâncias de gado, permitia apoiar as comunicações por terra entre Laguna e a Colônia do Sacramento, bem como oferecer ancoradouro seguro às comunicações marítimas naquele trecho da costa, particularmente hostil à navegação.

Saiba mais: Clicando aqui

Trecho de Terra de Muitos:
 
 Do que é esta terra, não tenho dúvidas a responder, porque é cousa que manipulo há seis meses. A este país, meu senhor, tenho chamado a ‘terra dos muitos’ e – ouça Vossa Mercê a razão – com toda a verdade, porque aqui há muita carne, muito peixe, muito pato, muito maçarico real, muita perdiz, muito jacum [jacu], muito laticínio, muito ananás, muita courama, muita madeira, muito barro, muito bálsamo e muito pântano; no verão, muita calma, muita mosca, muita mutuca, muito mosquito, muita polilha, muita pulga 
 No inverno, muita chuva, muito vento, muito frio, muito trovão e, com todo o tempo, muito trabalho, muita faxina, muito excelente ar, muito boa água, muita esperança, muita saúde para servir a Vossa Mercê; pode produzir, como já experimentamos, muita balancia [melancia] muita abóbora, muito legume, muita hortaliça e, porque, com uma palavra diga o que mais importa a Vossa Mecê, (...) também há muita falta de tudo o mais para a vida e para o luxo; e como o que veio de baetas, tabaco, facas e chapéus e outras drogas, por conta de El Rey, se tem feito um grosso avanço, seis frascos de aguardente se vendem por onze mil réis, bebe o comprador dois e vende os outros por onze mil réis 
 

Saiba mais: COUTINHO, André Ribeiro. “Terra dos Muitos”. In: Primeiros Cronistas do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: UFRGS, 1981