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Aparição de Nossa Senhora da Conceição

 

Conta-se que, um dia, em noite de grande tempestade, um cargueiro espanhol carregado de imagens de santos com destino a Buenos Aires teria naufragado próximo á barra do rio Tramandaí. A fúria dos ventos teria carregado uma imagem de Nossa Senhora rio adentro, repousando-a às margens de um arroio até ser descoberta pelos escravos do senhor daquelas terras.
 
A partir daí, criou-se o impasse: os escravos reivindicavam a imagem que o senhor mandou levar para a capela da Vila Estância da Serra (atual Osório). À noite, os negros entravam furtivamente na igreja e levavam a imagem, gerando a crença de que a santa fugia do altar para instalar-se na capela da fazenda, próxima aos escravos, gerando a lenda de Nossa Senhora da Conceição. 
 
Imagem do livro “Viajando pelo Município”. Marina Raymundo da Silva. (Jollo, 1999)
 

Fantasmas da Lagoa

 
Para muitos dos antigos moradores, a Lagoa dos Barros, traiçoeira e inóspita, é possuidora de um redemoinho que engole navegantes que se atrevem a alcançar-lhe o centro. Sem dúvida, a Lagoa dos Barros é a mais temida pelos habitantes dos municípios que contornam o cordão lacustre litorâneo.
Em matéria publicada pelo jornal Zero Hora, o sargento do Corpo de Bombeiros Rogério Marques, de 49 anos, lembra da correnteza, das ondas que vêm dos quatro lados, ao mesmo tempo, e de outros fatores de risco que recomendam evitar o local. 
 
- Bem em frente à chaminé da Agasa, tem um ponto em que a bússola fica doida - alega.
 
Alguns dos moradores mais antigos de Osório e Santo Antônio da Patrulha, municípios banhados pela Lagoa dos Barros, a creem encantada. 
Contam que sobre suas águas deslizam seres diáfanos, caravelas extraviadas de outros tempos e que suas margens são assombradas pelo temido fantasma de uma noiva assassinada que teve seu corpo jogado na lagoa, nos anos de 1940.
 
 

A Lenda do Fantasma da Noiva

 
 

 
Uma das narrativas populares conta que ao passar pela Lagoa dos Barros, tarde da noite, o viajante verá moças lindas, cavalgando corcéis sobre a água que se agita e que, num passe de mágica, volta a aquietar-se até o próximo assombro.
Contudo, de todas as aparições envolvendo a Lagoa dos Barros, a mais avistada e temida é a do Fantasma da Noiva. A noiva seria a jovem Maria Luiza Häeussler, a que se refere a matéria publicada pelo jornal Zero Hora e reproduzida acima. Pertencente à elite econômica porto-alegrense dos anos de 1940, Maria Luiza foi brutalmente assassinada pelo noivo após uma desavença entre os dois, em uma noite de baile em que foram vistos juntos pela última vez.
O rapaz a teria espancado, violentado e assassinado, trazendo seu corpo para as margens da Lagoa dos Barros e o abandonado às águas, junto a uma curva da estrada, aos pés do Morro de Osório. Dias depois, a jovem foi encontrada por moradores presa aos juncos. Contam que seu corpo estava intacto, não havia sido mordiscado por peixes que, segundo se crê, desapareceram para sempre das águas da Lagoa dos Barros ao testemunhar o gesto cruel do noivo.  
 

A Cidade Submersa

 
Outra narrativa atesta que, em suas profundezas, a lagoa esconde uma cidade submersa visível em períodos de seca, quando o nível das águas baixa a ponto de fazer emergir a torre de uma igreja ou de uma gruta, de onde surgem figuras fantásticas.
Contam que nessa cidade submersa há muito tempo vivia um escravo que recebeu ordens de seu senhor para escavar um poço muito profundo. O escravo não poderia abandonar o trabalho sem encontrar água, assim lhe ditou o amo.
Por mais que escavasse, o escravo não encontrava o tal de olho d’água que o amo tinha convicção de existir sob a areia. E o trabalho insano prosseguia. 
Um dia, quando o poço já alcançava grande profundidade, o escravo finalmente encontrou a água que brotou com tal força e em tal quantidade, que inundou toda a cidade, saciando para sempre a sede do senhor.
 

O Veleiro Fantasma e a Lenda do Anjo

 
Em Viajando pelo Município, Marina Raymundo da Silva resgata a narrativa que descreve como, em horas tardias da noite e sob o mais bonito luar, surge uma embarcação majestosa, feericamente iluminada e com velas plenamente infladas, que singra a superfície mansa da lagoa em todas as direções. Enquanto isso, uma moça coberta por um véu muito leve percorre as margens à procura de alguém que lhe alcance umas moedas.
 
No mesmo livro, transcreve o depoimento do casal de osorienses, Sr. João Teixeira Sobrinho, de 82 anos, e de sua esposa, Sra. Regina, 81 anos, à época da entrevista:
 
 

Lenda da Lagoa Negra
 

– Quem contava isso era a falecida tia Luíza, uma preta velha de uma fazenda daqui. E é verdade, pois todos que viveram naquele tempo testemunharam. 
 
Certo dia, um negro da fazenda onde trabalhava tia Luíza estava, ao amanhecer, perto da lagoa e viu um anjo que avisou sobre uma tragédia que iria ocorrer em algumas horas.
 
– O preto voltou correndo e avisou tia Luíza. Todas as pessoas que estavam dormindo deveriam sair do casario rápido, pois o morro iria desmoronar e todos morreriam se não abandonassem o local. Sem fôlego, o escravo afirmava que um anjinho, caminhando sobre as águas, havia lhe dado o aviso, pedindo que o transmitisse sem demora aos moradores.
 
– Dando crédito a suas palavras, tia Luíza apressou-se em acordar a todos e retirar alguns pertences da família. Algumas horas depois, uma grande pedra desmoronou e todas as casas da fazenda foram destruídas, confirmando a previsão do escravo ou do anjo que o havia usado como mensageiro. 
 
As demais lagoas também têm seus fantasmas, como o do pobre escravo que fugiu de um senhor mau, que o torturava e punia violentamente. Exausto de errar por praias e colinas, chega às margens da Lagoa Negra, que recebe esse nome por ter suas águas sombreadas pela mata que a entorna.
Inconformado com o destino que o aguarda, caso fosse capturado, e cansado de correr a esmo, o pobre homem elege uma figueira de copa larga para por um fim a seu sofrimento. Trançando uma corda de palha, sobe a um galho alto, enlaça o pescoço com firmeza e salta para a morte, ficando seu corpo pendente à sombra da figueira.
 
Desse dia em diante, canoas brancas cruzam a lagoa em várias direções e luzes misteriosas brilham na mata às margens da Lagoa Negra. É nesses dias em que se pode ver o escravo, trepado nas figueiras, entoando uma canção de lamento.
 

Saiba mais: SILVA, Marina Raymundo da. Viajando pelo município. Porto Alegre: Jollo, 1999..

 

O tesouro do Pirata Sezefredo dos Santos Godoi

 

Contam que ele era mau como todos os piratas supõem-se ser. 
Tinha um galeão majestoso e, com ele, costeava as areias da orla sulina, desde a barra do rio Mampituba, o “pai do frio”, até a saída do Rio da Prata. 

Espreitava, espreitava e, quando valia a pena, atacava.
Sua nau era tripulada por escravos negros encarregados de abarrotar o navio com braças de ouro saqueado de cargueiros que transportavam a riqueza americana para o outro lado do Atlântico.
Porém, certo, dia, nem mesmo o arrogante pirata pode resistir à traiçoeira Barra do Taramandi, ou Taramandabum, como era chamado o Rio Tramandaí nos tempos em que o potente galeão sucumbiu a um miserável banco de areia.
 
Vendo-se ali preso, Sezefredo deu ordem a seus subordinados: 
– Que todo o ouro seja transportado para a praia e dali para aqueles montes altos que se avistam a oito léguas da costa!
E, assim, o ouro foi carregado nos ombros dos negros que transpuseram banhados, contornaram lagoas e subiram encostas para enterrá-lo à beira de uma vertente, no meio do mato, em local avistado pelo comandante desde a praia para que do mar pudesse controlar sua riqueza.
Antes do último metro de terra encobrir o tesouro depositado em vala funda, o pirata ordenou a dois negros que disparassem todo o chumbo de suas armas contra os companheiros e jogassem seus corpos no buraco. Feito isto, o próprio comandante deu cabo dos dois matadores, enterrando-os junto aos demais.
E dali se foi, o pirata Sezefredo.
Contam que seu barco foi engolido por uma ventania, capturado pelos espanhóis ou incendiado pelos portugueses. O fato é que Sezefredo nunca mais voltou. 
Contam, também, que o mapa do tesouro foi preservado e que o segredo do pirata correu de boca em boca, de mão em mão e que, até hoje, muitos o procuram nas encostas do Morro da Borússia.
O motivo de não o terem encontrado, ainda, é justo: a quem se aproxima da vertente onde está enterrado o tesouro, urros lamentosos se elevam, uma ventania se arma, os cabelos se eriçam e as pernas dos ambiciosos se põem a correr.
São os escravos que, enterrados pelo seu senhor, guardam, até hoje, as riquezas do pirata Sezefredo dos Santos Godói.
 

Texto

Maria Helena Bernardes

Agradecimento

Roberto e Suzana Guatimozim, moradores do Morro da Borússia, por compartilharem a lenda.