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ONDE, QUANDO, QUEM COMEÇA O RIO GRANDE DO SUL

Antes mesmo da chegada dos açorianos no litoral norte no Rio Grande do Sul, a história do povoamento do estado esteve vinculada estreitamente ao processo de conquista e incorporação da região sulina ao domínio português, em disputa com os espanhóis. Na costa entre Laguna (ao Sul de Santa Catarina) e Tramandaí viviam os índios arachás, da família guarani, e os carijós, expulsos ou dizimados pelos primeiros brancos a entrar no estado, os bandeirantes paulistas que vinham à caça de escravos indígenas.

Saiba mais: BARROSO, Vera Lúcia Maciel. Açorianos no povoamento do Litoral Norte do Rio Grande do Sul. In:  Presença Açoriana.

Até o século XVIII, quando teve início o processo de ocupação portuguesa, os portugueses pouco conheciam o interior continental da Província de Rio Grande de São Pedro do Sul.

À época da chegada dos primeiros colonizadores brancos, o Litoral Norte do RS era predominantemente habitado por índios Xokleng e Kaingang, povos do grupo Jê Meridional, conhecidos, também, como Botocudos e Coroados.

 

Saiba mais:.
Sobre distribuição dos indígenas no território gaúcho:
http://www.paginadogaucho.com.br/indi/grupo.htm 
http://f1colombohistoriando.blogspot.com.br/2012/07/indios-os-primeiros-habitantes-do-rio.html 
Sobre a história do índio brasileiro durante a colonização: 
http://www.funai.gov.br/indios/fr_conteudo.htm

Corte de uma casa subterrâneaO Litoral Norte gaúcho era uma região isolada não só pela ausência de um porto marítimo natural (baía ou enseada), mas, também, pela falta de vias de navegação fluvial ou lacustre que a ligasse a outras regiões.

Tal característica retardou o conflito dos brancos europeus com os índios do litoral.

Os kaingang habitavam o Planalto Meridional Brasileiro (link) três mil anos antes da chegada dos europeus. 

Estes povos eram conhecidos como Proto-Kaingang, povos da Tradição Taquara ou Povo das Casas Subterrâneas.          

 

 

 

Saiba mais: DA CUNHA, Lauro Pereira. Índios Xokleng e colonos no Litoral Norte do Rio Grande do Sul (séc. XIX). Porto Alegre: Evangraf, 2012.

Para se proteger do inverno rigoroso que castiga as elevadas regiões do Sul do Brasil, chamados Campos de Cima da Serra, os Xokleng construíam suas casas de forma enterrada, mantendo-as, assim, protegidas dos ventos fortes e gelados que cortam o planalto.

Por vezes, as paredes eram compactadas com argila mais fina, resultando em uma camada de revestimento. O teto era apoiado sobre estacas: uma estaca principal no centro, que descia até o chão da casa, e estacas laterais, que irradiavam do mastro central e se apoiavam na superfície do solo, na parte externa.

O teto ficava pouco acima do nível do terreno, garantindo ventilação, iluminação e trânsito. As casas tinham mais ou menos 2 metros de profundidade e o diâmetro variava entre 2 e 22 metros.

Corte de uma casa subterrâneaVasilhas cerâmicas Xokleng.
 

Saiba mais: http://www.itaucultural.org.br/arqueologia/pt/tempo/subterranea/index.html

 

QUE VAZIO É ESSE? O MITO DO DESPOVOAMENTO DO LITORAL GAÚCHO

 

Os indígenas que viviam nas terras onde hoje é o Rio Grande do Sul, antes da chegada dos europeus, pertenciam a três grupos: 

  • Guarani (tape, arachane e carijó): litoral e parte central até fronteira com a Argentina; 
  • Jê (Kaingang e Xokleng): planaltos do Norte e Nordeste; 
  • Pampianos (Charruas e Minuanos): Sul, próximo ao Uruguai. 
     

REMANESCÊNCIA NO RS 

  • Guarani: restam pouco mais de mil vivendo no Rio Grande do Sul, a maioria no litoral. 
  • Jê: no RS, restam Kaingang vivendo em áreas demarcadas; os últimos Xokleng (cerca de 2000 indivíduos) se encontram em SC 
  • Pampianos (Charruas e Minuanos): praticamente exterminados no século XIX 
     

Saiba mais: http://f1colombohistoriando.blogspot.com.br/2012/07/indios-os-primeiros-habitantes-do-rio.htm

Mapa dos territórios Indígenas do RS.Mapa do território Xokleng.

 

OS XOKLENG HOJE

 

Os índios Xokleng da TI Ibirama, em Santa Catarina, são os sobreviventes de um processo brutal de colonização do Sul do Brasil iniciado em meados do século passado, que quase os exterminou em sua totalidade.

Saiba mais: Citado por Maria Cristina Bohn Martins: Sobre histórias não contadas/About untold histories

Apesar do extermínio de alguns subgrupos Xokleng em SC e do confinamento dos sobreviventes em área determinada, em 1914, o que garantiu a ‘paz’ para os colonos e a consequente expansão e progresso do Vale do Rio Itajaí, os Xokleng continuaram lutando para sobreviver a esta invasão, mesmo após a extinção quase total dos recursos naturais de sua terra, agravada pela construção da Barragem Norte ”. Hoje restam apenas 1853 indivíduos (FUNASA, 2010).

Saiba mais: http://pib.socioambiental.org/pt/povo/xokleng

O MITO DO DESPOVOAMENTO

um silêncio em relação à presença e ao protagonismo histórico de índios do grupo Jê no litoral gaúcho, como se esta região tivesse se tornado definitivamente ‘esvaziada de índios’ com a retirada dos Guarani Carijós pelas bandeiras escravagistas dos séculos XVI e XVII.

 

Na memória das comunidades tradicionais litorâneas restam 'histórias cheias de ação e vivacidade; violência e pavor, como no caso das ações de ‘bugreiros’ ou de ‘índias pegas no mato a cachorro'.

Saiba mais: DA CUNHA, Lauro Pereira. Índios Xokleng e colonos no Litoral Norte do Rio Grande do Sul (séc. XIX). Porto Alegre: Evangraf, 2012.

 

ENCONTRO ÍNDIOS E BRANCOS NO LNRS

 

Filme feito por Gunther Plüschow, em sua viagem de 1927 à Patagônia. Alguns trechos foram gravados no estado de Santa Catarina e mostram o contato dos imigrantes alemães, adentrando a mata para estabelecer colônia na serra catarinense e seu contato com os últimos Botocudos ou Xokleng, como têm sido denominados mais recentemente. O filme foi recuperado e lançado por vídeo pelo argentino Roberto Litvachkes. http://www.youtube.com/watch?v=LXJ3RdiDmeo

Em sua passagem pelo Rio Grande do Sul, entre 1820 e 1821, Auguste Saint-Hilaire viu com bons olhos o projeto do Conde da Figueira, então governador da capitania do Rio Grande, de povoar Torres com índios vindos de Porto Alegre que serviam de domésticos, muitos deles pertencentes a tribos diferentes, trazidos do Uruguai como prisioneiros de guerra.

 

AFONSO MABILDE: MEMÓRIAS DO CATIVEIRO

 

Botocudos e imigrantes em Colônia Lucena, Itaiópolis, Santa Catarina.
Em suas andanças pelo Sul do Brasil a serviço como engenheiro construtor de estradas, o belga Afonso Mabilde notou a extrema resistência dos Coroados às temperaturas extremas do Sul do Brasil, considerando-se, especialmente, que os indígenas habitavam os Campos de Cima da Serra:

Suportam facilmente o maior frio ou maior calor. Dir-se-ia que são dotados de uma insensibilidade difícil de admitir em relação ao frio (....). Temos encontrados no centro da serra, em meio aos pinheirais, às sete horas da manhã quando o termômetro Réamur marcava um grau e meio acima de zero, os coroados completamente nus, sem deixar perceber o menor sinal ou demonstração de sentir frio.

 

Saiba mais: MABILDE, Pierre. Apontamentos Sobre os Indígenas Selvagens da Nação Coroados dos Matos. São Paulo: IBRASA, 1983.

Índios e visitantes alemães em Santa Catarina

Pouca familiaridade com a água:

Vivendo ao longo de rios caudalosos e piscosos que amiúde atravessavam, não tinham embarcações, nem comiam peixes . Assim como os Kaingangs, os Xoklengs também não eram bons nadadores e evitavam entrar na água, pois as calhas de suas fechas empenavam depois de molhadas. 

Saiba mais: DA CUNHA, Lauro Pereira. Índios Xokleng e colonos no Litoral Norte do Rio Grande do Sul (séc. XIX). Porto Alegre: Evangraf, 2012. [pág.88]

Esses selvagens são, em geral, péssimos nadadores, fazendo um esforço extraordinário para manter-se n’água devido a seu sistema de nadar, imitando cachorros, e com movimento de braços e pernas quase sempre desencontrados e irregulares.

 

Saiba mais: RIBEIRO, Darcy. Os Índios e a Civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. P. 126. APUD: DA CUNHA. “O Litoral Norte e os índios antes da agricultura”. In: Índios Xokleng e colonos no Litoral Norte do Rio Grande do Sul (séc. XIX). Porto Alegre: Evangraf, 2012. [p. 88]

Morro da Borússia: Fronteiras entre índios e brancos

 Página do livro: Colônia Lucena: crônica dos imigrantes poloneses (p. 424-425)

A disputa pelos morros da Serra Geral, entre a Lagoa dos Barros (Osório) e o Mampituba (Torres) só tem início com a chegada dos imigrantes alemães, em 1826. A riqueza do solo dessa região já era do conhecimento das autoridades lusas desde antes da colonização. (...) Manuel Gonçalves de Aguiar relata a seus superiores, em 1721, que essas terras são as melhores e as de mais fertilidade que tem todo este Brasil. É, pois, visível que as terras da Serra Geral são as mais excelentes que há:

Começa no Rio das Torres (...) e corre por oitenta léguas até a Guarda dos Ferreiros ou Boca do Monte, com largura de oito léguas. Podemos dizer que são as melhores terras não só da capitania do Rio Grande, mas de toda a América. 

A ocupação prévia dessas áreas por indígenas era de conhecimento das autoridades, mas não se reconhecia o direito deles sobre a terra.

 

No Norte da Província, isto é, na serra, na região montanhosa e no extenso mato virgem que separa aquele do terreno plano, encontraram-se Botocudos que, devido à sua ferocidade eram muito temidos e bastante molestaram os primeiros colonos alemães do mato virgem.

Saiba mais: DA CUNHA, Lauro Pereira. Índios Xokleng e colonos no Litoral Norte do Rio Grande do Sul (séc. XIX). Porto Alegre: Evangraf, 2012.

Os Xokleng, denominados Botocudos, no século XIX, viviam restritos às florestas do Litoral Norte dos vales dos rios Maquiné, Três Forquilhas e Mampituba.

 

Saiba mais: JACOBUS , André: “A Prática da arqueologia no Quadrante Patrulhense”. In: MOSMANN SOBRINHO, P.G., Vera L.M. Barroso (Org.). Raízes de Taquara, (VOL 2). Porto Alegre: EST, 2008. Citado por: DA CUNHA. Índios Xokleng e colonos no Litoral Norte do Rio Grande do Sul (séc. XIX). Porto Alegre: Evangraf, 2012.

Em Viagem ao Rio Grande do Sul, (1820-21), encontrando-se ao Sul da Lagoa dos Barros, Auguste de Saint-Hilaire comenta que “quase todos os proprietários fazem suas plantações ao pé da serra, apesar de sua longínqua localização”.

Nas primeiras cinco décadas, a frente agrícola açoriana limitou-se “a arranhar as bordas da serra”, não sem conflitos com os índios. O estabelecimento de colonos no interior do território indígena só se daria de modo mais intensivo com a chegada dos colonos alemães à região, em 1826 .

Saiba mais: DA CUNHA, Lauro Pereira. Índios Xokleng e colonos no Litoral Norte do Rio Grande do Sul (séc. XIX). Porto Alegre: Evangraf, 2012. [p. 69-70]

 

MILÍCIA BUGREIRA

 

Em algumas regiões, os ‘bugreiros’ empreendiam verdadeiras caçadas aos bugres aniquilando-os. No Jornal ‘O Novidades’ de 05.06.1904, na pg. 02, foi publicado um artigo com o tema ‘Carneficina nos Bugres’, e nele consta todas as táticas e atrocidades praticadas pelos bugreiros contra os índios no decorrer de uma ‘batida’ (incursão). Do texto contido no referido periódico:

Índios Xokleng capturados por bugreiros sendo transportados para a Colônia de Blumenau, SC

O pavor e a consternação produzidas pelo assalto foi tal, que os bugres nem pensaram em defender-se, a única coisa que fizeram foi procurar abrigar com o próprio corpo, a vida das mulheres e crianças. Baldados intentos !! Os inimigos não pouparam vida nenhuma; depois de terem iniciado a sua obra com balas, a finalizaram com facas. Nem se comoveram com os gemidos e gritos das crianças que estavam agarradas ao corpo prostrado das mães! Foi tudo massacrado.

 

 Bugreiros

Do Jornal “O Novidades”, Blumenau, 19 de junho de 1904, página 04: 

O chefe da expedição José Bento foi morto pelos bugres. Sua morte deve ser sinceramente sentida. José Bento era um homem muito valente, e o melhor dos nossos caçadores de bugres ...

E em 12.03.1905, sob o título ‘Expedição contra os bugres’, no mesmo jornal:

chegando com as maiores cautelas, a um sinal convencionado, deram o ataque. Estabeleceu-se uma confusão enorme: gritos, pulos, imprecauções, um berreiro infernal por parte dos selvagens. Não contam os expedicionários, mas é fácil prever terem feito eles uma boa chacina, (...).

 

Saiba mais: http://www.revistapersona.com.ar/Persona65/65Flammariom.htm

O ataque aos nativos da costa leste brasileira acirrou-se com a chegada da família real portuguesa ao Brasil, em 1808. A carta régia de 05 de novembro de 1808 ordena imediata guerra aos “bugres”, definidos por D. João VI como “infestadores de meu território”. O plano de ataque da ‘milícia bugreira’ era começar a batida ao mato a partir do alto Mampituba para depois proceder uma varredura em direção ao Sul.

Saiba mais: DA CUNHA, Lauro Pereira. Índios Xokleng e colonos no Litoral Norte do Rio Grande do Sul (séc. XIX). Porto Alegre: Evangraf, 2012.

O insucesso das expedições bugreiras pode ser atribuído à falta de conhecimento sobre o modo de vida das pessoas que eles perseguiam. Sobre a “inaptidão de soldados profissionais [bugreiros] a combater índios no interior da floresta”: pouco podiam fazer, pois vivam estacionados em locais em que o índio não aparecia. Quando batiam os matos, não encontravam índios. Quando usavam seu armamento, ele se apresentava em estado precário.

Saiba mais: SANTOS, Sílvio Coelho dos. Os Índios Xokleng: memória visual. Florianópolis: UFSC; Itajaí: UNIVALE, 1997. P.16

Bugreiros e suas vítimas

Deslocados de territórios onde originalmente estiveram fixados como agricultores – as planícies de cima da serra e os campos litorâneos – e empurrados para a mata densa, os Xokleng constituíam-se em povo nômade, necessitando de um amplo território para suprir a coleta e a caça necessárias à sua manutenção:

Na Mata Atlântica, as estratégias de caça e coleta desenvolvidas exigiam uma atomização do grupo, de maneira a cobrir uma área mais ampla possível, os acampamentos eram pequenos e pouco estáveis, abrigando grupos subdivididos em poucas famílias por períodos de tempo poucas vezes superiores a alguns dias. Estes grupos reuniam 30 pessoas, aproximadamente:

Saiba mais: LAVINA, Rodrigo. Os Xokleng de Santa Catarina: uma Etnohistória e sugestões para arqueólogos. (Dissertação). São Leopoldo: UNISINOS, 1994. APUD DA CUNHA. p. 99

De outro lado, os bugreiros particulares eram extremamente eficientes na caça aos índios. bugreirismo exigia o domínio de técnicas de sobrevivência na selva, passando os caçadores sem comer, beber por dias seguidos na floresta.

Muitas vezes, “não faziam fogo, não fumavam, não falavam alto e nem levavam cães” que podiam denunciar sua presença. Havia um líder cuja principal tarefa era encontrar pistas que levassem ao acampamento, que o líder observava durante dias.

Tendo estudado bem o grupo, o líder orientava seus homens: a primeira providencia era cortar a corda dos arcos (normalmente deixados juntos durante a noite) e atacar os índios pela manhã, enquanto dormiam. “Primeiro, descarregavam pistolas, depois, o facão entrava em cena”.

Saiba mais: DA CUNHA, Lauro Pereira. Índios Xokleng e colonos no Litoral Norte do Rio Grande do Sul (séc. XIX). Porto Alegre: Evangraf, 2012.

Em passagem por Conceição do Arroio, em 1816, o oficial português Francisco de Paula Azeredo anotou: “à direita, estendia-se uma vasta cordilheira de montanhas detraz das quaes habitavam os povos bárbaros ou gentios, a quem os naturaes chamavam – Bogres – cujas incursões muitas vezes incommodavam os pacíficos e laboriosos habitantes do litoral ”.

Saiba mais: AZEREDO, Francisco de Paula de. “Em trânsito pelo Rio Grande do Sul em 1816”. In: Revista Província de São Pedro. APUD: DA CUNHA. P. 101

Aldeamentos indígenas no Litoral Norte, século XVIII

São Nicolau do Rio Pardo foi o primeiro aldeamento guarani-missioneiro do continente constituído nos moldes que remetem aos da política assimilacionista do Marquês do Pombal. De São Nicolau foram transferidas as populações indígenas que formaram os aldeamentos de Santo Antônio da Patrulha e de Nossa Senhora dos Anjos.

Saiba mais: DA SILVA E MELO, Karina Moreira Ribeiro. A ALDEIA DE SÃO NICOLAU NOS OITOCENTOS: MAIS DE UM SÉCULO ‘SEM NADA FAZER, NADA PENSAR, NADA SENTIR!’: http://anpuh.org/anais/wp-content/uploads/mp/pdf/ANPUH.S25.1385.pdf
 

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