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HISTÓRIA DAS ESTÂNCIAS SUL-RIO-GRANDENSES

 

LEGENDA: Sede da Estância Arvorezinha, em Piratini, RS. No lugar da palavra “fazenda”, em português, ou “hacienda” em espanhol, usadas correntemente em toda a América do Sul, outra palavra é até hoje empregada no extremo Sul do continente para designar terras destinadas à criação de gado. Este termo é “estância”.
 
A origem das estâncias no litoral do Rio Grande do Sul:
 
“A colonização luso-brasileira do Rio Grande do Sul ocorreu com uma defasagem de quase dois séculos do restante da costa brasileira. Tendo como atrativo a exploração econômica da pecuária, o território foi ocupado a partir da necessidade de abastecimento da região das Minas, descobertas no final do século XVII; abastecimento que incluía, além dos alimentos, o próprio meio de transporte necessário.”
“Criatórios extensos denominados estâncias surgiram a partir da existência de pastagens qualificadas, povoadas pelo gado xucro remanescente do empreendimento jesuítico. Destinados a invernar gado solto para deslocamento e comercialização em Sorocaba, estes estabelecimentos tiveram suas atividades iniciais ampliadas gradualmente, passando ao criatório efetivo, às atividades agrícolas e práticas fabris incipientes, como a produção da farinha de mandioca em atafonas, de charque, do curtimento de couro, entre outras mais recentes”.

 
 

Saiba mais: LUCCAS, Luís Henrique Haas. “Estâncias e fazendas: uma contribuição ao estudo da arquitetura tradicional rio-grandense”. http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/06.071/363

Mapa do Continente de Rio Grande de São Pedro do Sul em 1780, quando se iniciava o Ciclo do Charque.
 
Em 1778, o militar português Domingos Alves Branco Muniz Barreto comentou sobre o Continente de Rio Grande de São Pedro do Sul: 
 
Os moradores mais ricos e poderosos deste continente são os que possuem algumas fazendas que denominam estâncias. Estas abundam em gado, não tendo este, ali, maior valor.
(Observações relativas à agricultura, comércio e navegação do continente do Rio Grande de São Pedro, no Brasil, 1778)

O dicionário Morais (1789) também discrimina o uso particular do termo:
No sul da América, estâncias são terras com criação de gado vacum e cavalar.
Em 1839, Nicolau Dreys, militar, comerciante e viajante francês, que percorreu o estado no início do século XIX, também procurou definir as grandes extensões privadas de terra:
Chama-se estância no Rio Grande do Sul, uma circunscrição dada das campinas do país, povoada de gado, cavalos e mulas e, em certas porções, partes de carneiros; tem ordinariamente a extensão de uma sesmaria, às vezes de duas, de três e mais; os animais multiplicam-se nelas na razão da quantidade inicial, da vastidão do território e da bondade dos pastos.
Assim, a origem do termo estância remonta ao século XVIII, quando o território do Uruguai e do Rio Grande do Sul era disputado pelas coroas ibéricas. Em meio a batalhas constantes por fronteiras movediças, formou-se o tipo gaúcho, nascido da fusão das culturas indígenas charrua e minuano, do espírito de aventura e de pilhagem dos bandeirantes paulistas e do sangue mouro que corria em veias castelhanas. 
 
 
"Índios charruas civilizados (peões de estância)”. Aquarela de Jean-Batiste Debret. “Viagem pitoresca e histórica ao Brasil” (1836).
 
Em 1704, Francisco Ribeiro, sargento-mor do exército português, comentava a respeito das terras que, dentro em pouco, a coroa principiaria a colonizar:
Tem estas terras, pela grandeza, comodidade, riqueza e fertilidade, suficientíssimo sítio para nela fazer-se, em poucos anos, um Reino muito maior que o de Portugal, (...) levando da praia de Castilhos [Uruguai] até Laguna [Santa Catarina], vinte e seis dias de viagem – e sempre com bastante gado”.
Enfatizando a abundância de gado no litoral (chamada Vacaria do Mar, gado introduzido por jesuítas e que se reproduziu livremente), prossegue Francisco Ribeiro:
A comodidade é admirável pela excessiva quantidade de gado; segura o sustento e conveniência a todos os que a habitarem, aos seus gados ovelhuns, por cuja procriação é vantajosa a deste Reino, e a seu gado vacuns, a qual propagação não há parte no mundo que a tenha semelhante.
 
 Estancieiro gaúcho do século XIX representado por Jean-Baptiste Debret. 
 
 

Saiba mais:CESAR, Guilhermino. Primeiros Cronistas do Rio Grande do Sul, 1605-1801. Porto Alegre: URGS, 1981.

O território sulino era nômade, móvel, belicoso e instável. Entre metade do século XVIII e meados do XIX, Portugal e Espanha amadureceram acordos que estabilizaram as fronteiras de suas colônias, possibilitando que os limites políticos do Rio Grande do Sul ganhassem o contorno atual. 
A estratégia de ocupação portuguesa do Rio Grande do Sul incluiu a doação de sesmarias , sendo a primeira delas concedida em 1726 a um lagunense, na Paragem das Conchas, atual município de Tramandaí. Em uma terra de nomadismo e fronteiras movediças como era o Rio Grande de São Pedro do Sul, a possibilidade de “estar” na terra carregava um sentido forte: significava possuí-la, criar gado vacum e muar, solidificar fronteiras, resistir às investidas castelhanas e, logo adiante, expulsar indígenas e trazer braços estrangeiros, (colonos europeus e escravos), para gerar riqueza. A estância era, portanto, o lugar onde homem e gado podiam estar e enraizar-se.
 
Viajantes da Província do Rio Grande do Sul representados por Jean-Baptiste Debret.
 
Desde o tratado de Santo Ildefonso, (1777), pelo qual Portugal concedia a Colônia de Sacramento aos espanhóis e, em troca, incorporava a fatia oriental do Rio Grande do Sul, intensificou-se a concessão de sesmarias aos militares que se destacaram em combate. Esta classe de militares foi a origem da aristocracia rural gaúcha. Com ela, teve início o regime das estâncias como uma das bases econômicas da região, fundamentado na experiência social, política e guerreira de um grupo experimentado a ferro e fogo.
 
No início de 1784, o Vice-Rei do Brasil mandou realizar uma “Relação de moradores que têm campos e animais no Continente [de São Pedro do Rio Grande do Sul]” com objetivo de conhecer a real situação da distribuição de terras no extremo Sul da colônia. O documento classifica proprietários e propriedades em quatro categorias: “lavrador”, “criador”, “criador e lavrador” e “mais lavoura que criação”.
 A “Relação” possibilitou conhecer o ritmo da ocupação do território, as formas pelas quais os habitantes obtiveram a posse dos terrenos, a ocupação a que se dedicavam e o tamanho dos rebanhos – tudo isso em um momento de rápida apropriação de terras, sete anos após a reconquista da Vila de Rio Grande aos espanhóis. 
A leitura da “Relação” produz a curiosa constatação de que, apesar de já considerado o “reino da pecuária”, ao final do século XVIII, o Rio Grande do Sul possuía mais produtores dedicados à agricultura do que à criação de gado. 
Os maiores produtores eram José Francisco da Silveira Casado, que possuía 8 mil reses, o padre João Diniz Alves de Lima, com 10 mil, Custódio de Souza Oliveira, com 11 mil, e Caetano da Silveira de Matos, possuidor de 12.200 reses.
A elite de estancieiros à qual pertenciam estes produtores desenvolveu estratégias para ampliar seus domínios e constituir extensíssimas estâncias. A maior dos proprietários tinha estâncias constituídas por 2, 3 ou 4 terrenos contíguos, adquiridos de diferentes formas.
 
Legenda: “Fazenda de charque no Rio Grande do Sul”. Aquarela de Jean-Batiste Debret. “Viagem pitoresca e histórica ao Brasil” (1836). 
 
Ainda conforme a “Relação”, 40% dos estancieiros possuíam mais de 10.000 ha e o tamanho médio das propriedades era de 12.095 ha. Recorde-se que a dimensão máxima de uma sesmaria era de três léguas quadradas, ou 13.068 ha e, portanto, grande parte do grupo possuía estabelecimentos com dimensões muito próximas a de uma sesmaria. Mas muitas outras extrapolavam largamente esta dimensão. Encontramos uma única propriedade com 22.869 há; outra, no distrito de Vacaria, com 43.560 ha, de um proprietário que possuía outra sesmaria em Cachoeira. Caetano da Silveira de Matos, o maior proprietário de gado (12.200 cabeças vacuns) possuía um campo de 69.969 ha, mais de 5 léguas quadradas. Mas nenhum outro se equipara ao cel. Rafael Pinto Bandeira, que tinha 12 campos diferentes, espalhados pelas freguesias de Anjos, Encruzilhada, Cerro Pelado, Vacaria e Rio Grande. Apenas em Cerro Pelado possuía 34.848 ha, apesar de ter aí somente 6.000 reses. Claramente, o militar mais prestigiado do Rio Grande estava realizando um processo bem sucedido de monopolização de terras.
Os estancieiros ocupavam uma posição de elite no conjunto da sociedade sulina. Dos 100 cadastrados pela “Relação de moradores que têm campos e animais no Continente”, (de 1784), 48 estancieiros possuíam patentes militares (seis, de tropas regulares, e 42, de tropas auxiliares), o que é bastante representativo sobre a constituição social desta elite.